Uma planta, dois países: descoberta no Cerrado revela espécie 'escondida' há décadas

  • 21/08/2026
(Foto: Reprodução)
Uma planta, dois países: descoberta no Cerrado revela espécie 'escondida' há décadas Uma planta de flores lilases ou azuis, capaz de alcançar dois metros de altura e produzir inflorescências de até um metro, acaba de ganhar oficialmente um nome para a ciência. A descoberta da Stachytarpheta pradoi, porém, começou muito antes de os pesquisadores perceberem que estavam diante de uma nova espécie. Exemplares da mesma planta haviam sido coletados na Bolívia décadas atrás e permaneciam em herbários identificados como Stachytarpheta canescens. Foi após coletas recentes realizadas em Mineiros (GO), que pesquisadores brasileiros conseguiram juntar as peças dessa história. 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram A nova espécie foi descrita por pesquisadores brasileiros em estudo publicado na revista científica Phytotaxa. Até o momento, a planta é conhecida em áreas da Bolívia e do Brasil, com as populações conhecidas nos dois países separadas por aproximadamente 1.100 quilômetros em linha reta. A história da descoberta brasileira começou em dezembro de 2025, durante um levantamento da flora da região do Pinga Fogo, em Mineiros. A professora e pesquisadora Isa Lucia de Morais, da Universidade Estadual de Goiás (UEG), percebeu que havia algo diferente na planta. “Já tinha conhecimento que se tratava de uma espécie de Stachytarpheta diferente das que conhecia. Como não sou especialista no táxon busquei ajuda do taxonomista em Verbenaceae, Pedro Henrique Cardoso da Universidade Estadual Paulista (UNESP). Ele já de início me disse que poderia ser uma espécie que tinha registro para Bolívia e que poderia ser algo novo”, conta Isa. A pesquisadora enviou amostras coletadas em Goiás para Pedro. A partir daí, a investigação avançou para dentro dos herbários. “Com muita dedicação dele consultando materiais de outros herbários para ver o material botânico da Bolívia, e com ajuda da professora Fátima Regina Gonçalves Salimena, da Universidade Federal de Juiz de Fora, ele conseguiu confirmar que se tratava de uma nova espécie”, explica Isa. Uma planta, dois países: nova espécie ficou décadas 'escondida' em herbários Isa Lucia de Morais Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1: GASTRÓPODES: Cavernas do Pará escondem mistérios; duas novas espécies são encontradas NAS ALTURAS: Quais urubus existem no Brasil? Conheça cinco espécies e suas diferenças RARO: Vídeo inédito mostra abelhas nativas limpando narina de águia-serrana em MG Como saber que uma planta é uma nova espécie? Encontrar uma planta diferente não significa, automaticamente, descobrir uma nova espécie. É necessário compará-la com espécies já conhecidas, estudar características morfológicas e consultar registros e exemplares preservados em coleções científicas. Segundo Pedro Henrique Cardoso, professor doutor da Unesp e um dos responsáveis pelo estudo, esse trabalho é realizado pelos taxonomistas, especialistas que investigam a diversidade, as características e a distribuição dos organismos. “Para reconhecer uma espécie como nova para a ciência, não basta encontrar uma planta que pareça diferente. É necessário compará-la cuidadosamente com as espécies que já foram descritas, analisar suas características morfológicas, verificar os registros existentes em coleções científicas, e compreender sua distribuição geográfica. Só depois de uma investigação detalhada é possível concluir que se trata, de fato, de uma espécie ainda não descrita pela ciência”. Coleta no Cerrado revela espécie que passou décadas 'escondida' em herbários Isa Lucia de Morais No caso da Stachytarpheta pradoi, os pesquisadores encontraram um conjunto de características que permitiu diferenciá-la das demais espécies do gênero. Uma das principais diferenças está nas brácteas — estruturas associadas às flores. A planta também possui ramos e folhas densamente pilosos, flores lilases ou azuis e inflorescências estreitas e cilíndricas que podem alcançar um metro. “A identidade da espécie não é definida por uma característica única, e sim pela combinação de diferentes caracteres morfológicos. Essa planta é densamente pilosa nos ramos e folhas, as inflorescências são estreito-cilíndricas, podendo alcançar até 1 m de comprimento; as brácteas lineares ou estreitamente lanceoladas, menores ou aproximadamente do mesmo comprimento que o cálice, e as corolas podem ser lilás ou azuis. Essa combinação de características permite diferenciá-la das demais espécies do gênero”, explica Pedro. A Stachytarpheta pradoi pode atingir dois metros de altura. O cálice das flores é verde ou verde-arroxeado, enquanto a corola é tubular, pode medir até 1,2 centímetro de comprimento e possui cinco lobos. Uma distância de 1.100 quilômetros A distribuição conhecida da espécie trouxe outra questão aos pesquisadores. No Brasil, a Stachytarpheta pradoi foi encontrada no Cerrado de Mineiros. Na Bolívia, ocorre no departamento de Santa Cruz. Entre as populações conhecidas nos dois países há aproximadamente 1.100 quilômetros em linha reta. Uma planta separada por 1.100 km revela uma nova espécie no Cerrado Isa Lucia de Morais Existem duas possibilidades discutidas pelos pesquisadores para explicar essa distância. A primeira é que a espécie apresente naturalmente uma distribuição disjunta, com populações geograficamente separadas. A segunda é que existam outras populações entre Goiás e a Bolívia que ainda não foram encontradas ou documentadas pela ciência. “É curioso destacar que as populações conhecidas de Stachytarpheta pradoi na Bolívia e no Brasil estão separadas por aproximadamente 1.100 km em linha reta. Tal padrão pode refletir uma distribuição naturalmente disjunta da espécie”, explica Isa. A própria flora de Mineiros já apresentou outras ocorrências inesperadas. Segundo os pesquisadores, espécies anteriormente associadas a outras regiões da América do Sul ou do Brasil também foram posteriormente registradas no município. “Alternativamente, a aparente disjunção pode refletir um conhecimento incompleto sobre a distribuição de Stachytarpheta pradoi, assim como possivelmente ocorre com outras espécies vegetais, decorrente tanto da amostragem botânica insuficiente na região intermediária quanto da existência de registros de herbário adicionais ainda não digitalizados e sem imagens disponíveis em bancos de dados online”, afirma Isa. Planta encontrada no Cerrado revela espécie 'escondida' há décadas na ciência Isa Lucia de Morais Por isso, a distribuição atualmente conhecida deve ser interpretada com cautela. Os pesquisadores apontam que populações adicionais podem existir em regiões ainda pouco exploradas do oeste brasileiro, como a Serra de Ricardo Franco, ao longo da fronteira entre Brasil e Bolívia. Novas pesquisas de campo e a continuidade da digitalização das coleções de herbários serão necessárias para determinar com maior precisão a distribuição da espécie. Cerrado ainda guarda segredos A descoberta também chama atenção para o que ainda falta conhecer sobre a biodiversidade do Cerrado. Segundo Isa, o sudoeste de Goiás encontra-se severamente antropizado. Em Mineiros, parte dos remanescentes de Cerrado está protegida em unidades de conservação ou permanece em áreas com formações rochosas que dificultam atividades agropecuárias convencionais, principalmente a pecuária e as monoculturas. Mesmo nesses fragmentos, novas descobertas continuam acontecendo. “Mas, nesses fragmentos de Cerrado, com nossas pesquisas, ainda estamos encontrando diversas espécies novas para Ciência”, afirma a pesquisadora. Para Isa, dois fatores ajudam a explicar esse cenário: a elevada biodiversidade e o endemismo do Cerrado e a escassez de pesquisas botânicas de campo na região. “Temos convicção de que estas características da região são promissoras para que as nossas pesquisas possam contribuir grandemente para o aumento do conhecimento da flora do Cerrado e para ampliação da distribuição de outras espécies”. Pedro ressalta que uma espécie ser descrita somente agora não significa, necessariamente, que seja extremamente rara. Coleta no Cerrado revela espécie que passou décadas 'escondida' em herbários Isa Lucia de Morais “Em alguns casos, pode realmente se tratar de uma espécie com populações pequenas ou distribuição muito restrita. Mas, em muitos outros casos, uma espécie pode ser relativamente comum e, ainda assim, permanecer desconhecida pela ciência por muito tempo”. O pesquisador destaca que áreas pouco amostradas, grupos ainda pouco estudados e até coleções científicas antigas podem guardar biodiversidade ainda desconhecida. “Existem áreas pouco amostradas, grupos de organismos que receberam pouca atenção científica e também espécimes depositados em herbários há décadas que ainda não foram adequadamente estudados. Além disso, algumas espécies são muito semelhantes entre si e só conseguem ser reconhecidas como distintas após estudos taxonômicos mais detalhados”. Uma espécie que já estava nos herbários A história da Stachytarpheta pradoi é um exemplo de como espécies ainda não descritas podem permanecer dentro das próprias coleções científicas. Os exemplares bolivianos coletados décadas atrás estavam identificados em herbários como Stachytarpheta canescens. A análise desses materiais, em conjunto com as coletas recentes realizadas em Goiás, permitiu aos especialistas concluir que se tratava de uma espécie distinta. “Aqui destaca-se o papel das pesquisas em campo, porque o início dessa descoberta de uma nova espécie começou a partir desta etapa. Outro aspecto preponderante é o conhecimento dos taxonomistas botânicos”, afirma Isa. Os herbários funcionam como acervos científicos nos quais plantas coletadas em diferentes épocas e lugares são preservadas e podem ser posteriormente estudadas e comparadas. No caso da nova espécie, esse material foi fundamental. “Os espécimes bolivianos coletados há décadas estavam identificados erroneamente em herbários como Stachytarpheta canescens. Isso exemplifica um padrão cada vez mais reconhecido na literatura, no qual uma proporção substancial da diversidade de plantas tropicais permanece oculta em coleções de herbário existentes”, explica Isa. Do Cerrado à Bolívia: nova espécie ficou décadas 'escondida' em herbários Isa Lucia de Morais O próprio estudo cita trabalhos científicos anteriores que estimam que 50% ou mais dos espécimes de plantas tropicais possam estar identificados incorretamente e que espécies ainda não descritas podem já ter sido coletadas, mas permanecer à espera de reconhecimento taxonômico e descrição formal. Para Isa, o cenário reforça a importância dessas coleções. “Existe uma necessidade urgente de maior fomento para a digitalização das coleções dos herbários e para qualificação de mais botânicos, dada a alta biodiversidade e alto endemismo brasileiros.” Pedro também vê a descoberta como um sinal do tamanho da biodiversidade que ainda falta conhecer. “O que podemos afirmar é que certamente existem muitas espécies ainda não descritas pela ciência. Cada nova descoberta mostra que, apesar de todo o conhecimento que já acumulamos, ainda há uma parcela significativa da biodiversidade que permanece desconhecida. E isso reforça a importância de investir em pesquisa, em coleções científicas e na formação de taxonomistas”. Nova para a ciência e já sob alerta A descrição da espécie veio acompanhada de um alerta sobre sua conservação. Na avaliação preliminar apresentada no estudo, os pesquisadores classificaram a Stachytarpheta pradoi como Em Perigo (EN) com base nos critérios utilizados pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Os autores calcularam uma extensão de ocorrência de 31.283,6 quilômetros quadrados e uma área de ocupação de 44 quilômetros quadrados. Pela extensão de ocorrência, a espécie se enquadraria como Quase Ameaçada (NT), enquanto a área de ocupação está dentro do limite utilizado para a categoria Em Perigo. Considerando também a distribuição fragmentada, a área de ocupação restrita, a ausência de registros conhecidos em áreas protegidas e o declínio na extensão, área e qualidade do habitat, os pesquisadores fizeram a avaliação preliminar da espécie como Em Perigo. De acordo com os registros atualmente disponíveis, a Stachytarpheta pradoi não foi documentada dentro de áreas protegidas. Grande parte de sua distribuição conhecida está em regiões submetidas a mudanças intensas no uso da terra, principalmente relacionadas à expansão agrícola e ao desmatamento no departamento de Santa Cruz, na Bolívia, e no Cerrado de Mineiros. Várias coletas também foram realizadas às margens de estradas e em áreas de vegetação perturbada, o que indica que a espécie ocorre em habitats sujeitos à pressão humana. “No caso do Brasil, o Cerrado é uma das regiões de maior biodiversidade. No entanto, sua flora vem sendo progressivamente ameaçada pela conversão de áreas naturais para a expansão de monoculturas, pela mineração e por outras formas de ocupação e exploração do território”, afirma Pedro. Em Goiás, entretanto, uma característica do ambiente onde a espécie foi encontrada pode contribuir para a manutenção da população local. “O local onde ocorre Stachytarpheta pradoi faz parte de uma região denominada Pinga Fogo, em Mineiros. Embora não esteja dentro de uma Unidade de Conservação existe esperança para a sobrevivência da espécie no local por causa da grande extensão de afloramento rochoso presente na região, com a fitofisionomia dominante sendo constituída por cerrado rupestre”, explica Isa. Segundo a pesquisadora, essa condição ambiental inviabiliza a conversão da vegetação nativa para práticas agropecuárias. “Pesquisas futuras no local poderão contribuir para avaliar as condições de perpetuação das populações da espécie”. Entre Brasil e Bolívia, nova espécie passou décadas 'escondida' em herbários Isa Lucia de Morais Pedro reforça que a perda de uma espécie também representa a perda de uma história evolutiva e de interações ecológicas que nem sempre são totalmente conhecidas. “Toda espécie é resultado de uma longa história evolutiva e representa uma parte única da biodiversidade do planeta. Quando uma espécie desaparece, não perdemos apenas uma história evolutiva única, mas também todas as funções, interações e contribuições que ela desempenha no ecossistema, muitas vezes sem sequer compreendermos plenamente tudo aquilo que aquela espécie representava e proporcionava”. Por que Stachytarpheta pradoi? O nome escolhido para a nova espécie é uma homenagem ao botânico brasileiro Jefferson Prado, especialista em pteridófitas e um dos autores do Código Internacional de Nomenclatura para algas, fungos e plantas, que estabelece as regras para a atribuição dos nomes científicos. Segundo Pedro, a homenagem também tem um significado pessoal para os pesquisadores. “Ao longo dos anos, Jefferson nos auxiliou em diversas questões relacionadas à nomenclatura botânica, sempre com enorme conhecimento, generosidade, paciência e gentileza. Além de sua reconhecida contribuição para a ciência, é uma pessoa que admiramos e por quem temos grande carinho e amizade". Para o pesquisador, colocar o nome do cientista em uma espécie recém-descrita foi uma forma de eternizar essa contribuição. “Por isso, tivemos a satisfação de eternizar seu nome na nomenclatura de uma nova espécie, como uma pequena homenagem à sua trajetória científica e à sua contribuição para a Botânica”. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2026/08/21/uma-planta-dois-paises-descoberta-no-cerrado-revela-especie-escondida-ha-decadas.ghtml


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